1.0 [BIO]COMUNIDADE
A primeira fase projectual consistiu na imersão no campo da biologia, conduzida pela pesquisa de processos transformativos orgânicos no sentido de estabelecer um paralelismo com o campo medial. Às relações exploradas no primeiro semestre entre homem/máquina acrescenta-se agora o vector natureza. Tendo como tema basilar a [re]construção do livro nas suas mutações físico/digital, foi realizada uma pesquisa de processos naturais de transformação dos organismos. Metamorfose e fossilização foram os processos identificados, configurando-se em metáforas pelas ligações directas que estabelecem com a questão das mediações. Nesse contexto, foi identificada uma comunidade biológica – a ephemeroptera – que opera um conjunto de relações simbióticas e que passa por um processo de metamorfose gradual. A sua vida é composta por quatro fases que se distinguem em termos morfológicos, comportamentais e de habitat.
// EPHEMEROPTERA
A ephemera [ephemeroptera] recebe esta denominação devido ao seu curto tempo de vida no estado adulto, que pode durar apenas algumas horas.
É um artrópode [do grego arthros (articulado) e podos (pés)]. Morfologicamente caracteriza-se por possuir um exoesqueleto rígido e vários pares de apêndices articulados. Este exoesqueleto, que cobre o corpo bilateralmente simétrico da ephemera, desempenha várias funções como protecção e suporte corporal, e é uma armadura à qual estão anexos os músculos. No entanto, pelas suas rigidez e resistência não é capaz de acompanhar o desenvolvimento do indivíduo que cresce dentro de si, tornando-se inibidor. Periodicamente a ephemera é forçada a passar pelo processo de ecdise, em que abandona o seu exoesqueleto em detrimento de um novo modelo que produz, maior. Este processo delicado, para além do desgaste metabólico que envolve, deixa a ephemera sujeita a uma maior vulnerabilidade enquanto o novo exoesqueleto não enrijece. Outra importante característica do exoesqueleto dos artrópodes é a sua impermeabilidade, dotando-os da capacidade de viver também em ambientes terrestres.
Este insecto distingue-se pela peculiaridade de ser o único animal a passar por um processo de metamorfose que inclui o estado de pré-adulto. É precisamente o processo de metamorfose que permite à ephemera desempenhar as transformações necessárias a cada uma das fases.
// INTERACÇÃO
A ephemeroptera é crucial para o equilíbrio dos ambientes onde habita. Não obstante, passa grande parte da sua vida sem elevados níveis de interacção social. As relações simbióticas – endógenas e exógenas – são diferenciadas conforme a fase da vida em que se encontra, interagindo com espécies diferentes. É sobretudo presa, sendo alvo de predação de várias espécies em ambos os habitats. Enquanto ninfa vive submersa na água e os seus predadores são maioritariamente peixes ou outros insectos aquáticos. Na vida adulta, terrestre, encontra outros predadores que podem até ser pássaros. A ephemera pode também ser hospedeira de vários parasitas, sobretudo no seu estado de ninfa. Recentemente foi descoberto um fóssil de ephemeroptera em âmbar que evidencia a utilização da ephemera como meio de transporte por um animal da ordem Collembola, que nela se fixa para se deslocar.
Para a espécie humana, a ephemera desempenha importantes papéis. Pelos seus hábitos alimentares, esta espécie ajuda a purificar a água ao filtrar grandes quantidades de partículas de nutrientes e facilita a reciclagem da matéria orgânica. Por outro lado, desempenha um papel fundamental na cadeia alimentar dos ambientes aquáticos constituindo-se como uma importante componente na fauna. Serve de alimento para outros invertebrados e vertebrados aquáticos e o facto de ser herbívora permite fazer a ponte entre a produção da flora e da fauna. Extremamente sensível à poluição, são ainda consideradas indicadores biológicos da qualidade ambiental.
O objectivo primordial da ephemera é a perpetuação da espécie, que de forma altruísta persegue determinantemente. O macho perece momentos depois do acasalamento. Fertilizados os ovos da fêmea, restam apenas breves momentos para garantir que mais nenhum macho a encontre. À fêmea cumpre ainda a tarefa – a última – de depositar os ovos fertilizados na água, para que um novo ciclo se inicie. De forma geral, os organismos entram no estado de decomposição logo após a sua morte. Este processo pode envolver diversos agentes: organismos decompositores (geralmente micro organismos); agentes físicos (alterações de pressão e temperatura) e agentes químicos (dissoluções, oxidações, entre outros). Não obstante, existem casos na natureza em que materiais protectores envolvem os restos orgânicos, evitando assim o seu contacto com os agentes decompositores. Os compostos orgânicos que constituem o organismo morto são substituídos por outros mais estáveis nas novas condições. São vários os processos de fossilização (incrustação, mumificação, recristalização, carbonificação, mineralização e moldagem). São conhecidos diversos fósseis da ephemeroptera nas suas várias fases.
// TRANSFORMAÇÃO [as fases da ephemera]
1.0 [ovo]
A vida da fêmea completa-se no momento em que consegue libertar os ovos, e assim termina. Os ovos são de pequenas dimensões, quase imperceptíveis a olho nu. Consoante a espécie específica, as suas formas variam entre ovoide e rectangular; a sua morfologia é também distinta. Quando lançados à água os ovos submergem para o fundo dos rios ou lagoas. A sua superfície exterior tem propriedades de aderência para se fixar no substrato. Em geral demoram cerca de duas semanas a eclodir, sendo esta duração variável. Podem surgir casos em que os ovos permanecem sem qualquer alteração de crescimento, mas a eclosão é evitada pela incompatibilidade das ninfas com o ambiente.
2.0 [ninfa]
Quando eclodem medem cerca de 1mm; podem crescer até aos 3 ou 4mm. O corpo das ninfas é formado por três regiões: cabeça, tórax e abdómen. A cabeça tem dois olhos, duas estruturas sensíveis chamadas antenas e a boca. A boca é constituída por diferentes partes, variando a sua forma e estrutura para uma adequação aos métodos alimentares. O tórax compõe-se por 3 segmentos, cada um dotado de um par de pernas. Os último e penúltimo segmentos têm ainda a componente que se desenvolverá em asas na fase subsequente. Na região abdominal estão as guelras, que funcionam tanto como órgão respiratório como mecanismo de ventilação. No último segmento do abdómen existem 3 filamentos (ou, por vezes, apenas dois) especialmente úteis para o equilíbrio e movimentação na água. Vivem em água doce sem poluição e podem durar desde alguns meses até cerca de dois anos e meio. As ninfas alimentam-se essencialmente de material vegetal (algas unicelulares e coloniais do biofilme), além de detritos. Na fase final do estádio de ninfas as ephemeropteras emergem até à superfície aquática para se prepararem para a muda [ecdise] para a fase seguinte.
3.0 [subimago // pré-adulto]
O processo de metamorfose da ephemera é considerado incompleto por não passar pelo estado de pupa. Entre o estado de ninfa e de adulto há uma fase intermediária – sub-imago – única entre os insectos. Esta fase consiste numa passagem para a idade adulta. As ninfas emergem para a superfície da água e o seu exoesqueleto abre-se. As asas, que estavam já formadas, libertam-se da pele que as cobria e a ephemeroptera inicia a sua vida no ambiente terrestre. Pela maior parte das suas características esta fase é já idênticas à fase adulta, excepto pelo sistema reprodutivo imaturo e pela tonalidade mais esbatida. Já não se alimenta, sendo as peças bucais não-funcionais. O estado de pré-adulto pode durar desde alguns minutos até 48 horas e inicia com o abrir das asas. Durante este tempo em terra a subimago desenvolve os seus órgãos reprodutores. Este estado termina quando a ephemeroptera passa pelo seu último processo de muda [ecdise], transformando-se em adulto.
4.0 [imago // adulto]
Com duração de apenas algumas horas esta fase é dedicada essencialmente à reprodução. Sem se alimentar, a ephemera foca-se em acasalar. Na cabeça, os dois olhos são proeminentes, acentuando-se mais nos machos. Entre os olhos, na frente da cabeça, encontram-se 3 pontos sensíveis. A cabeça tem ainda duas antenas, que são órgãos sensoriais. As asas triangulares, de membrana frágil, são mantidas verticalmente mesmo em repouso. As traseiras são menores que as anteriores e têm menos venação. As pernas são unidas ao tórax por dois pequenos segmentos. Estas não são usadas para andar. Os machos têm as pernas dianteiras mais longas e usam-nas para segurar a fêmea durante o acasalamento que ocorre em voo. A vida dos machos termina momentos depois do acasalamento. Às fêmeas cumpre ainda a importante tarefa de voltar à água para lançar os ovos. Esta tarefa altruísta é desempenhada de forma distinta consoante a espécie. São conhecidos diferentes técnicas de depositar os ovos na água, embora todas partilham o mesmo objectivo.
[morte]
A ephemera é um ser frágil pelo seu número considerável de predadores em cada um dos ambientes em que vive, pelas situações delicadas que tem de ultrapassar ao longo do seu desenvolvimento e pela sua sensibilidade à poluição. Se for bem sucedida em cumprir o seu ciclo integralmente, deverá regressar à água. A morte da ephemera corresponde a um novo ciclo, a uma nova vida que assim inicia.