1.1 [PARÁBOLA]
Identificados conceitos fundamentais a partir da biologia, apoiados na comunidade das efémeras, pretende-se assumi-los como catalisadores do desenvolvimento projectual de dispositivos de comunicação que explorem características comportamentais do livro – no contexto da sua transformação motivada pela era digital.
Metamorfose, exoesqueleto e fossilização serão os conceitos basilares para a abordagem ao dispositivo, aos quais se anexam questões transversais da vida humana, biológica e social.
// METAMORFOSE [ou a transmutabilidade]
No caso específico desta espécie a metamorfose é gradual e é considerada como incompleta – por não passar pelo estado de pupa. Na biologia, o processo de desenvolvimento de alterações que convertem a larva em animal adulto recebe a designação de metamorfose. Envolve geralmente um processo extensivo de divisão e diferenciação celular e por vezes movimentos morfogénicos – o crescimento, por si só, não poderia concretizar a transformação da larva em adulto. No caso da ephemeroptera a metamorfose implica uma mudança de habitat. O estado de ninfa é vivido no fundo das superfícies aquáticas enquanto o adulto e pré-adulto são estados terrestres. Muitas ninfas morrem durante o processo de subida para a superfície da água por dificuldades inerentes ao próprio processo de transformação – teimam em contrair as alterações biológicas que os seus corpos sofrem, fazendo um esforço por manter-se submersas onde se sentem mais confortáveis e protegidas. Aquelas que conseguem chegar à superfície libertam-se do exoesqueleto, abrem as asas (que nesta fase já se encontravam formadas mas presas pelo próprio exoesqueleto) e voam. A metamorfose do livro gerou uma mudança de hábitos, de costumes, de interesses, de relações.
O livro, tal como a ephemera, tem comportamentos diferentes ao longo das várias fases da sua vida na história. As primeiras fases de vida da ephemera, correspondentes à vida aquática, têm em termos de interacção social uma existência mais individual. As relações simbióticas são geralmente exógenas e visam sobretudo a alimentação. Paralelamente, o livro físico potencia uma experiência eminentemente individual de fruição, embora tenha em si mesmo um carácter expansivo.
// EXOESQUELETO/ECDISE [ou a impermanência]
Tal como a ephemera, um livro tem, morfologicamente, um revestimento que protege o interior. A necessidade de ultrapassar os próprios limites leva a que essa capa seja transponível.
// FOSSILIZAÇÃO [ou a permanência]
Na sua vida terrestre a ephemera ganha asas, muda de comportamento, de habitat, de objectivos. Não se alimenta e a sua interacção endógena é necessariamente mais activa. O tempo torna-se mais acelerado, a sua finitude é explicitada.
No sentido oposto está o processo de fossilização. Reunidas certas circunstâncias, a ephemera pode entrar nesse processo orgânico que dita a sua morte mas fez perpetuar a sua existência física; o corpo persiste, mas o seu papel na comunidade altera-se. Do mesmo modo, o livro fossilizado passou por um processo de transformação que ditou a sua morte. Enquanto morto, o seu papel na comunidade altera-se, persistindo como fonte de informação residual, e cristalização do tempo.
// HABITAT
O modo como a ephemera interage com o seu habitat foi também um dos aspectos importantes para o desenvolvimento projectual. Quando vive na água a ephemera está dotada de guelras. O seu movimento tem efeito na água e nas areias, causando correntes. Esta agitação, que provoca alterações no ambiente, foi utilizada como metáfora na construção do objecto. O objecto contém no seu interior uma subtância líquida que, ganhando vida, é agitada e produz movimento. O ambiente arenoso e aquático serviu ainda de mote para a construção da imagem que se veio a fixar nas paredes do objecto.