2.0 [CONCEITO]
// COMUNICAÇÃO / MEDIAÇÃO / REMEDIAÇÃO
«Human communication is an artificial process. It relies on artistic techniques, on inventions, on tools and instruments, that is, on symbols ordered into codes.» (FLUSSER, 2002: 3)
A ubiquidade dos media tende a acentuar a sua transparência: «After learning a code, we have a tendency to forget its artificiality» (FLUSSER, 2002: 3). Em ephemera[codex] o enfoque foi colocado na experiência da mediação, em particular num medium que tem sofrido grandes alterações nas últimas décadas – o livro.
Segundo W.T.J. Mitchell, os processos de hipermediação utilizam lógicas que enfatizam o processo mais do que o objecto, numa multiplicação da presença medial. ephemera[codex] pretende lançar uma concepção de livro enquanto entidade própria – não como suporte transparente para uma narrativa – fixando o enfoque na mediação. Neste processo, a remediação medial conduziu à hipermediação, na construção de uma experiência multisensorial.
O conceito de remediação em que se apoia ephemera[codex] é definido por David Bolter, numa aproximação à mimesis de Derrida, não no sentido de semelhança objectiva da representação, mas de aproximação processual. (BOLTER, 2000: 53). De certo modo estava já enunciado por Marshall McLuhan, como sublinha Bolter, na noção de que «o conteúdo de um medium é outro medium», sugerindo a complexidade das relações mediais em que um medium está incorporado ou é representado por outro (BOLTER, 2000: 45).
Estes princípios são particularmente problematizados com a entrada do computador no âmbito da produção culturais, devido às características de simulação que este possui. Como afirma Peter Weibel em «The Post-medial Condition», todos os domínios da criatividade humana são afectados pela presença e pelo efeito do computador, naquilo a que designa por condição pós-medial. (Weibel, 2005)
Este movimento não deve ser lido como uma redução ou simplificação. Deve antes ser analisado pela sua condição complexa de transmediação. No processo de convergência multi-medial potenciada pelo computador surgem novos conceitos – novos modos de criar, analisar e experienciar a arte e o design. Lev Manovich sublinha este papel de simulação por parte do computador que considera tão revolucionário como os outros por introduzir a possibilidade de novos tipos de acesso e manipulação de conteúdos. (MANOVICH, 2005)
As alterações contemporâneas no campo da comunicação são herdeiras de transformações simultaneamente culturais e técnicas. Dessa correlação entre cultura e técnica importa sublinhar que, por um lado, as transformações no campo da cultura literária não foram exclusivamente motivadas pelo desenvolvimento da técnica, sobretudo no que diz respeito ao conceito de propriedade e de autoria. Como aponta Carla Hesse, essas transformações tiveram uma base cultural introduzida lentamente desde o Renascimento, cimentada com o advento das democracias ocidentais no final do século XIX. (Hesse, 1996: 22). Mas é sobretudo por via das alterações técnicas que as grandes mudanças se operam no que diz respeito ao contexto actual do livro.
O estudo do livro, a sua dicotomia objecto impresso/digital, permite abordar um leque de questões centrais – não apenas pelo efeito da digitalização, mas por todo o processo e o contexto dessa digitalização. Como aponta José Afonso Furtado, esse contexto encontra um momento especialmente particular por fazer convergir pela primeira vez em simultâneo alterações no modo de produção e de reprodução: «Roger Chartier tem vindo a insistir em que (...) o momento em que nos encontramos configura uma “revolução” mais radical do que as anteriores (...) muitas das categorias através das quais nos temos relacionado com a cultura escrita estão a alterar-se, pois a revolução do texto electrónico é ao mesmo tempo uma revolução da técnica de produção e de reprodução dos textos, uma revolução do suporte da escrita e uma revolução das práticas da leitura...» (FURTADO, 2007: 12).
// OBJECTO-LIVRO / DIGITALIZAÇÃO
A abertura do campo medial a uma construção narrativa não-linear colocou o livro impresso numa posição delicada. Ao preconizar uma alteração substancial no modo como nos relacionamos com o livro, abriu caminho à sua anunciada morte. Por outro lado, a nova vida digital permitiu uma reconceptualização do livro.
Desenvolvido por Ted Nelson na década de 60, o hipertexto possibilitou um novo paradigma de organização de informação e conhecimento que, nos anos 90, popularizado pela worl wide web, se tornou central para a cultura contemporânea. Sendo inicialmente uma ferramenta de tratamento de informação, o hipertexto tornou-se – pelo contacto com a cultura – uma «textualidade alargada, a qual está longe de ter atingido os limites da sua criação e criatividade. (...) Não se limitando a ser um suporte técnico da escrita, o hipertexto tornou-se uma prática de escrita abrangendo, justamente por lhes dar uma configuração nova, as práticas literárias de experiência dos limites, limites da narrativa e do livro como limite de uma certa racionalidade de escrita.» (BABO, 2004: 107)
José Afonso Furtado Afirma: «... o hipertexto é também o princípio organizacional da estrutura do nosso espaço intelectual. Questão da maior importância para abordar o problema das competências culturais nas sociedades contemporâneas Trata-se de uma nova ecologia, que evita uma oposição simplista entre o impresso e o digital» (FURTADO, 2007: 70).
// QUALIDADE AURÁTICA
Com o processo de digitalização, o texto separou-se do objecto-livro, marcando «o fim da era inaugurada pela invenção do livro», como sublinha Jean Clément. (Clément, 2004: 28).
A aproximação ao campo artístico – apoiada na qualidade aurática do livro físico – é uma das vias em que o livro continua a viver, sedimentada na construção de uma experiência sensível. Esta qualidade aurática distingue-se daquela que o livro foi tendo no início da sua história, firmada mais pelo seu conteúdo do que pelo objecto. A dimensão aurática devia-se ao valor da narrativa, à importância do testemunho, ao símbolo de conhecimento. Furtado explicita: «Na verdade, da palavra de Deus à palavra do homem, o livro tornou-se a garantia da memória, da existência da ordem e da lei...» (FURTADO, 2007: 13).
Em Reinventing the Medium, Rosalind Krauss refere, a propósito da fotografia, uma relação entre obsolescência e as possibilidades de redenção envolvidas no próprio modelo ultrapassado. Segundo Krauss, é precisamente neste ponto – enquanto modelo descartado – que a fotografia encontra uma nova relação com a produção estética naquilo a que Krauss vai chamar de «... act of reinventing the medium». (KRAUSS, 1999: 296) Ao longo das últimas décadas o livro vem traçando um percurso de algum modo semelhante, na medida em que da obsolescência do modelo impresso nasceram novas produções estéticas. A metáfora de epehemra[codex] posiciona-se nesse contexto de qualidade aurática, em que o livro é o mote para um desenvolvimento projectual.
Na década de 60 do século XX, em grande medida pelo contributo dos artistas do grupo Fluxus, a cultura dos livros entra no domínio da fine art, num movimento antagónico aos esforços de George Maciunas, de democratização e anti-hierarquização. Os livros eram produzidos e encarados como objectos auráticos e coleccionáveis. As lojas de livros nascidas neste contexto aproximavam-se cada vez mais de galerias.
Esta via de produção – que chega até à contemporaneidade – é, segundo Florian Cramer, um dos indicadores do futuro no que concerne ao objecto-livro. No sentido contrário à crescente migração para o digital, assistimos à produção de livros de artistas que sublinham as qualidades materiais do objecto em papel. ephemera[codex] sublinha esta dicotomia entre a anunciada morte do livro e os possíveis caminho alternativos de vida, posicionando-se simbolicamente no interstício.
A morte aparente do livro físico é ultrapassada pela transmutabilidade da matéria. Ao livro que pereceu são acrescentadas extensões digitais que permitem aceder ao seu interior e captar a energia e a informação residual que nele permanecem, para a partir daí operar uma nova vida. O livro assume-se enquanto old medium que pereceu, mas encontra uma nova vida por via da remediação.
// INTERACTIVIDADE
No processo de transmutação para o formato digital, o livro ganhou características de impermanência e de interactividade. «Um acto comunicativo quando mediado por um suporte dá lugar ao fenómeno da divisão em categorias dicotómicas que são convocadas pelos sistemas de representação» (Vairinhos, 2002: 11).
Os objectos interactivos, no entanto, têm feito questionar essas categorias, reduzindo a distância que separa o sujeito do objecto. O enfoque passa para a ideia de experiência, que se tornou-se central na cultura digital, herdeira da interactividade.
A experiência da fruição enquanto processo – sobretudo enquanto processo interactivo – coloca o espectador no campo de acção. ephmera[codex] é também uma instalação, e como tal concebida para ser explorada pelos visitantes que não só experienciam como se tornam parte integrante da própria experiência. O observador faz parte daquilo que é observado, enquanto simultaneamente ultrapassa a unilateralidade da comunicação.